Aportes indispensáveis do Autoconhecimento na Mediação

Aprender a olhar e ouvir o outro só pode acontecer quando o indivíduo cultiva o hábito de aprender a olhar e ouvir a si mesmo  – Jean Vaysse

O tema abordado busca contemplar a importância do autoconhecimento do mediador para o processo de mediação, seguindo a vertente que a natureza do ser humano busca suprir a necessidade do bem-estar, viver em paz com você mesmo e interagir pacificamente com as diferenças do outro, dizer um sincero “sim” à vida.

A Relação entre pessoas implica em conviver com diferentes interesses, necessidades e desejos, aprender a lidar com os conflitos que surgem dessas interações é habilidade indispensável na sociedade contemporânea, oportunidade de transformação e pacificação, para isso a mente deve estar sempre alerta ao modo como reagimos aos estímulos que nos são apresentados.

A prática de se conhecer faz com que a pessoa se conecte com suas emoções, acolhendo e compreendendo suas ações e inações, independente de serem positivas ou não, empoderando e conferindo oportunidade de vencer paradigmas limitantes.

Em princípio, antes mesmo de nos expressar, construímos o que pensamos em prol da cultura, crenças, experiências e como resultado, produzimos o que sentimos. O pensamento é uma ferramenta que utilizamos para resolver os problemas, e o modo como usamos essa ferramenta pode estar viciado e até mesmo doente.

Paradoxalmente somos livres, mas vivemos aprisionados em nós mesmos, cada vez mais reféns da ansiedade, estresse, medo, angustias, misturando sentimentos, bombardeando nossa identidade com autocrítica, culpa, vitimização, esquecendo o fato de que errar é humano, faz parte do aprendizado e reconhecer pontos de fraqueza, pode ser um passo para o fortalecimento pessoal, gradual e sistêmico.

O autoconhecimento pode nos libertar de padrões destrutivos de relacionamentos, tem o poder de acalmar os pensamentos, perceber os sentimentos para descobrir a necessidade que está na raiz da insatisfação, agir na direção de preencher o que falta atender o que se reclama desconstruir a causa dos impasses, conferir caráter preventivo e pedagógico à resolução do impasse.

O mediador é um terceiro imparcial que auxilia pessoas em conflitos na construção da melhor solução e, frequentemente, gerencia situações que importam cargas emocionais intensas, muitas vezes simples, mas outras complexas, envolvendo diferentes gerações, origens, sexos, raças, culturas e, principalmente, com distintas percepções das histórias que contam “cheias de razão” dificultando o diálogo consciente e cooperativo.

Por isso a importância de observar e se autoavaliar: “Esta é uma forma imparcial de ver esta situação? Ou existe outra forma de vê-la? Estou desconsiderando algum fato relevante? Estou atribuindo juízo de valor? Quais são os meus valores e qual a hierarquia deles?

A autorreflexão pode servir como matéria prima da competência emocional dentro no ambiente da mediação, traz consciência ao mediador para analisar as próprias sensações e reações, confere caminhos para acessar as melhores ferramentas que darão suporte à condução produtiva em prol de objetivos satisfatórios.

Importante está vigilante e carregar consigo a lucidez de que quando surge necessidade de buscar ajuda de um terceiro imparcial para promover a comunicação, o sistema já está desequilibrado e as pessoas pertencentes ao conflito têm a tendência de enxergar apenas o lado negativo dos outros e do entorno.

Constate que é muito comum perceber o pensamento destrutivo na situação relatada de uma pessoa que está atrasada para o trabalho e ao chegar ao local o gerente a chama para conversar, logo a conclusão da demissão, sentimento de medo, enquanto o chamado era para propor novo projeto, o estresse foi vivenciado como se fosse uma situação de perigo e o organismo sofreu as reações antecipadamente de fatos que sequer existiram, mas as sensações serão somadas e guardadas no subconsciente.

Assim, frequentemente, as partes chegam à mediação com a comunicação bem violenta acumulada de ressentimentos e qualquer informação mal interpretada pelo mediador como pessoal ou desrespeitosa pode ser o fim da integração entre facilitador e mediando, escalando conflitos e desconstruindo possibilidades e relações.

Indispensável saber dos próprios limites e das próprias possibilidades para conduzir a sessão, cuidar do ambiente para que se torne confiável, harmonioso, ser afável, valorar sentimentos, devolver a autoria da decisão a cada um dentro da sua própria vida através do diálogo com qualidade empática.

Por isso o autocontrole pode ser questão de sobrevivência para mediação seguir em frente, o mediador deve unir o autoconhecimento às técnicas narrativas, provocar o processo de mudança individual, interpessoal e social, mostrar caminhos para convivência sadia, pacífica e agradável.

Existem diversas competências que podem ajudar o mediador no processo dialógico, com intuito de fornecer um possível atalho ao interessado, apontarei sete habilidades que servirão de bússola para mapear as emoções a serviço do resultado útil do processo: i. Aprofundar a auto-observação; ii. Reconhecer o que pensa, sente, age frente ao que deseja iii. Separar a pessoa do problema, iv. Perceber o outro como ele se mostra, v. suspender prejulgamentos, vi. Criar consciência da relação com o outro e com tudo que está inserido no mundo que o cerca, vii. interagir com propósito de coconstruir opções e alternativas mais cooperativas para compatibilizar interesses e necessidades.

Embora pareça desgastante dedicar-se ao trabalho reflexivo, o autoconhecimento assume responsabilidade, ensina a resolver o presente com prospecção, não desperdiça tempo e nem energia com o passado, desenvolve a capacidade de reagir e criar oportunidades para construir opções de ganhos mútuos, gerando soluções adequadas e satisfatórias

O mediador competente deve conhecer as diversas ferramentas da mediação, (Tânia Almeida) ser hábil em lidar com as próprias emoções e transitar por diversas áreas do conhecimento, uma vez que a mediação é uma ciência interdisciplinar, proporcionar às partes possibilidades de encontrarem respostas por si próprias, através da arte do diálogo e da interação interpessoal.

Como bem declara Marshall B. Rosemberg, em seu novo livro comunicação não violenta, as necessidades não acolhidas se comunicam através dos sentimentos como medo, raiva, depressão, ansiedade, tristeza, agressividade e reconhecer que, por exemplo, o ataque pessoal ao mediador pode ser a ponta do iceberg para o descobrimento da causa daquele comportamento ao invés de contra-atacar, utilizar o autoconhecimento em favor do resultado final.

                        O cenário da sessão da mediação deve ser preparado com habilidade, separar àquelas pessoas envolvidas em conflitos do mundo atual que adora respostas rápidas para problemas cotidianos, o ponto é resolver o incômodo atendendo aos interesses, perguntar com técnica, verificar qual área da vida está sendo mais afetada, é o trabalho ou dinheiro; família ou relacionamento; saúde ou bem-estar? Qual necessidade deve ser satisfeita, qual a prioridade e como atendê-la?

Como nos ensina Nelson Mandela:

“sempre procurei ouvir o que cada uma das pessoas engajadas em uma discussão tinha a dizer antes de arriscar manifestar a minha própria opinião”

A narrativa de uma pessoa sobre um determinado tema revela mais sobre a própria pessoa do que os fatos por ela narrados, pois a história trazida à tona está sendo contextualizada de acordo com o mundo dela, do lugar no qual ela se sente confortável, por isso a isenção de juízo de valor é fundamental, cada palavra dita deve ser integrada ao contexto, como um sistema vivo.

Narrar é contar uma história, narrar-se é contar a sua história ou uma história da qual é, foi ou será personagem. As narrativas dos mediandos oferecem em si a possibilidade de uma análise e investigação profunda e detalhada das circunstâncias vivenciadas.       

Prestar toda atenção, escutar de forma atenta a essas narrativas denota a compreensão de que o outro é coparticipante de uma interação, com empatia e respeito ao comportamento alheio, as pessoas são diferentes, ainda bem que assim o é!

Sempre um grande desafio para quem escuta é ter o cuidado de não julgar certo ou errado, reconhecer os próprios valores, respeitar as diferenças e isso exige concentração, treinamento e autoconhecimento até porque quando os valores são sufocados a sensação é de insatisfação.

Colocar-se em movimento de escuta e atenção ao outro, busca aplicar o autoconhecimento em prol dos participantes da mediação, o que nem sempre significa comunhão de escolhas, mas respeito e capacidade de estar presente, se doar, lembrar que somos especiais, construir em conjunto, agregar interesses, extrair soluções criativas com harmonia, compaixão e sabedoria.

Comumente quando iniciamos uma mediação e o mediando abre a conversação, percebe-se que o outro mediando, assume duas posições: “já sei o que ele vai dizer e concordo; assim, não vou perder tempo continuando a ouvi-lo”; “já sei o que ele vai dizer e discordo; assim, não tenho motivo para ouvi-lo até o final. Nos dois exemplos, a consequencia é a mesma: negar a capacidade ou a possibilidade de aprender algo de novo.

Albert Einstein (Mariotti, 2010) definiu essa situação em duas frases bem conhecidas: a) “nenhum problema pode ser resolvido pelo mesmo estado de consciência que o criou”; b) “tudo mudou, menos o nosso modo de pensar”.

O mediador hábil cria oportunidade de mudar esse modo binário de pensar, promovendo, incerteza nas crenças, ou seja, problematizando os conhecimentos daí advindos, submetendo-os a uma reflexão mais sistematizada, abrindo novos caminhos, para que o processo de mediação cumpra sua missão de co-construir novos pensamentos e ideias para que as pessoas encontrem suas soluções.

Abraham Lincoln disse com propriedade que “as pessoas são felizes quando decidem ser”, nesse norte, cada um de nós é capaz encontrar as próprias necessidades e satisfazê-las, mas muitas vezes esse caminho é desviado do curso natural e perde-se o controle, abrindo espaço para avalanches de problemas, os quais não há solução, ou melhor, a pessoa decide que não há saída.

Controlar a própria vida dedicar-se a preocupação exacerbada com o futuro, culpar os outros, aprisionar-se no passado, ter medo de fracassar, são atitudes que dão a sensação falsa de estar no comando, mas, na verdade afastam a responsabilidade que cada um de nós tem de conhecer o sentimento para alcançar a necessidade.

REFERÊNCIAS

ALMEIDA, T. Caixa de Ferramentas em Mediação – Aportes práticos e teóricos. 2015.

FILOMENO, Leonardo. Ensinamentos de Nelson “Madiba” Mandela. Disponível em: <http://manualdohomemmoderno.com.br/comportamento/ensinamentos-de-nelson-madiba-mandela> Acesso em 09 de junho de 2015

MARIOTTI, Humberto. Diálogo: um Método de Reflexão Conjunta. Disponível em: <http://www.teoriadacomplexidade.com.br/textos/dialogo/Dialogo-Metodo-de-Reflexao.pdf > Acesso em 20 de março de 2015

JEAN VAYSSE. Disponível em http://ambientevistoriado.com/final-de-semana-em-nyc-dedicado-ao-autoconhecimento acesso em junho de 2016

MARSHALLl B. Rosenberg – Comunicação Não-Violenta, 2015

 

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Patrícia Clélia Coelho de Carvalho

– Mediadora e Advogada
– Pós-graduação – Intervenções Sistêmicas para Resolução de Conflitos e Disputas em Diferentes Contextos – Pontifícia Universidade Católica – PUC-SP
– Instrutora Conselho Nacional de Justiça  em Formação, Mediadora Certificada pelo Instituto de Certificação e Formação de Mediadores Lusófonos – ICFML
– Coordenadora e Docente dos cursos Conciliação e Mediação Judicial – Res. 125 do CNJ – na ALGI e ESA/OAB da Subseção Jabaquara
– Diretora Adjunta Comissão Mediação OAB Jabaquara
E-mail: patricia.mediata@aasp.org.br

 

 

 

 


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