Da máquina de escrever ao processo eletrônico

Ao elaborar este artigo, pretendi trazer à memória dos operadores do Direito o tempo em que a máquina de escrever era nosso instrumento de trabalho. Meu objetivo foi alegrar um pouco o dia do leitor com as lembranças, ou ao menos fazer surgir no rosto um sorriso quando vier à mente a pergunta: “como a gente conseguia?”

Naqueles idos não existia pesquisa na internet, nossas dúvidas eram solucionadas nos volumes de livros que continham a Doutrina e nas publicações trimestrais de Jurisprudência da Revista dos Tribunais e IOB. Papel, caneta e fichas de andamento comprados na papelaria faziam as vezes do atual notebook, e com muita competência.

Usávamos as duas mãos para datilografar, oito dedos para as letras e caracteres, e os 2 polegares para a barra de espaço, sem nem mesmo olhar. As máquinas de escrever mecânicas tocavam  em suas batidas a música característica pausada pelo giro da mudança de linha. É um som que não existe mais, somente toca na memória.

Quando datilografávamos as petições, observávamos um grande espaço em branco na página inicial, espaço que perdeu a  necessidade, pois era destinado ao despacho do Juiz. Ainda o mantemos somente pela estética criada.

Aguardávamos as publicações que chegavam por meio dos recortes grampeados do jornal Diário Oficial entregues pelos jovens empregados da CAASP que, como carteiros, passavam de escritório em escritório.

A rotina nos fóruns era protocolar iniciais impressas em papel na Distribuição, onde se verificava o Juízo competente no grosso e azul Guia de Ruas, inseria a primeira página na máquina mecânica de protocolo e esta carimbava numeração, data e horário.

Os escreventes faziam calos nas mãos pelo uso dos carimbos de Juntada ou Conclusão. Os advogados também não ficavam atrás, contribuindo com sangue pelos cortes nos grampos tipo trilho ou bailarina, frequentemente enferrujados.

As páginas dos processos eram numeradas à caneta uma a uma, com o visto do funcionário que não podia perder a contagem das folhas.

As publicações do Diário Oficial eram datilografadas em formulário próprio da gráfica, sem conter erros. Quando houvessem, eram corrigidos pela palavra: “digo”, seguida pela palavra correta.

Para visualizar os processos, nobres patronos encostavam suas barrigas no balcão do cartório, os solicitavam e aguardavam o escrevente encontrar, e isso poderia demorar um pouco. Não existia um computador para verificar a localização: o processo poderia estar conclusos, retirado pela outra parte, na pilha junto com outros para guardar ou na estante lotada (quando não extraviado, então só restava chorar). Encontrado o volume, manuseavam-no por longos minutos, fazendo anotações com MONTBLANC ou caneta BIC, todos no mesmo balcão.

As copiadoras do Tribunal trabalhavam com valor da cópia muito alto (ainda sobrevivem?…) enquanto outras da região entorno ficavam superlotadas, faturando ao copiar volumes de 200 páginas.

Alguém teve um dia a  boa ideia de fotografar os autos, surgindo a figura constante das máquinas fotográficas. Muitas vezes, as fotos não saiam nítidas e só quando se chegava no escritório percebia que o pedaço mais importante estava ilegível. Em pensar que hoje é só dar um zoom!

Os prazos eram checados nas grandes agendas do Advogado, verificadas todos os dias.

Os papéis decoravam os escritórios, dispersos pelas mesas ou arrumadinhos em pastas de elástico, caixas arquivo ou nos armários cinza de metal de pastas suspensas. Grampeadores, clips, limpa tipos, lápis borracha…por toda parte.

E isso tudo acabou com o advento do processo eletrônico.

Copiadoras faliram ou mudaram de ramo, a exemplo do que aconteceu com as locadoras de vídeocassete. Não há mais espaço para recortes no Diário oficial e o planeta está sendo poupado com o desuso do papel. Há inúmeros programas de computador que analisam a causa, buscam jurisprudência, modelos prontos de petição e calendários virtuais que não nos permite perder prazos. Não há mais necessidade de comparecer pessoalmente no Fórum, exceto quando determinado.

O ofício continua o mesmo, com toda sua virtude, mas a forma de operá-lo mudou.
O próximo artigo irá tratar da adaptação às mudanças. Se o prezado leitor tem uma história interessante sobre o assunto que descrevi, entre em contato comigo.

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Cilene Sonzzini Ribeiro de Souza

Advogada
Graduada e licenciada em História na USP
Membro da Comissão de Processo Civil OAB Jabaquara
Membro do Núcleo Jurídico do OIC-IEA/USP
Contato: sonzzini@adv.oabsp.org.br


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