Liberdade religiosa e sua compreensão

O presente artigo traz uma abordagem ampla da prática religiosa na prevenção e tratamento de dependentes químicos no Brasil. Muitos familiares de dependentes químicos e até mesmos o próprios, quando vivenciam ou deparam-se com a terrível realidade de estar envolvidos com drogas, além de procurarem tratamentos médicos, também veem a possibilidade de se utilizar de sua fé, seja ela qual for, na prevenção e tratamento de drogas.

Pesquisa realizada pela jornalista Wendel Lima, em sua matéria, Fé na prevenção, através de entrevista feita com a Doutora e pesquisadora Zila van der Meer Sanchez, que “explica em sua tese de doutorado que a religião ajuda a proteger as famílias do consumo de drogas, ao defender sua tese, revelou que o papel dos grupos religiosos na recuperação dos dependentes químicos é o acolhimento e acompanhamento dos usuários”.(1)

Zila van der Meer Sanchez, é professora do curso de Medicina e da Pós-graduação em Saúde Coletiva da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), pesquisadora do Centro Brasileiro de Informações sobre Drogas Psicotrópicas (Cebrid), seus estudos afirmam que, “as pessoas que procuram ajuda para deixar as drogas em grupos religiosos não fazem isso por uma questão de fé, mas de desespero. Geralmente, elas pedem socorro quando estão no fundo do poço e possuem pouca consciência de tudo o que envolve fazer daquela organização. Algumas recorrem às igrejas porque se frustraram com outros tratamentos ou por causa da insistência de familiares que disseram que aquilo funciona.” (2)

Diante de tal afirmação, a professora e pesquisadora, afirma que o que faz a diferença no primeiro momento, desses grupos religiosos, é o acolhimento. No segundo momento, quando têm acesso às informações e experiências daquela religião, é que eles desenvolvem a fé. Finaliza dizendo que o processo é lento, mas é consistente.

A pesquisadora Solange Aparecida Nappo, que faz parte do Centro Brasileiro de Informações sobre Drogas Psicotrópicas. Departamento de Psicobiologia. Universidade Federal de São Paulo. São Paulo, SP, Brasil, afirma que a religião não apenas promove a abstinência do consumo de drogas, mas oferece recursos sociais de reestruturação: nova rede de amizades, ocupação do tempo livre em trabalhos voluntários, atendimento “psicológico” individualizado, valorização das potencialidades individuais, coesão do grupo, apoio incondicional dos líderes religiosos, sem julgamentos e, em especial entre evangélicos, a formação de uma nova família.

Conclui, Solange Nappo que “parte considerável do sucesso dos “tratamentos” religiosos está no acolhimento oferecido àqueles que buscam ajuda, no respeito que lhes é transmitido, auxiliando na recuperação da autoestima e reinserção social por meio de novas atividades e vínculos sociais. Esta estrutura alicerça-se na fé religiosa, que promove o vínculo ao grupo por oferecer respostas religioso filosóficas para as questões da vida. (3)

Eldon Mendes de Souza, mestre em Ciência da Religião pela Universidade Católica de Pernambuco, no que se refere à interferência da dimensão religiosa na existência humana, identificou-se que, “em virtude da religião se configurar como uma das dimensões da vida,  acredita-se que é por meio da religião, que se pode manter um contato com Deus, pois mais do que um sistema de crenças, é uma espécie particular do agir coletivo e, permite interpretar a vida, construir uma nova identidade e dominar o próprio ambiente, tanto individual como coletivamente. E, como é algo que faz parte da vida humana vivenciada e internalizada como uma fonte segura pode sim, permitir ao indivíduo alcançar resultados positivos nas mais diferentes áreas de sua vida” (4), inclusive a recuperação de vícios.

O vínculo com determinadas doutrinas religiosas para tratamento de dependentes químicos, nada mais é que uma opção de tratamento, uma oportunidade que os dependentes têm de se sentirem acolhidos e incluídos em um grupo, sociedade. Vendo em tais grupos uma nova família, apoio e motivação para continuar prosseguindo.

A prática religiosa na prevenção e tratamento de dependentes químicos não substitui os recursos científicos disponíveis, que no primeiro momento na fase de tratamento, a abstinência, tais recursos podem diminuir o sofrimento do dependente. O tratamento médico e o espiritual são complementares, e o resultado eficaz desse processo é muito maior quando os dois são realizados juntos.

A liberdade religiosa defendida pela nossa Constituição Federal de 1988 dá aos dependentes químicos escolha de se envolver na doutrina que mais o deixa confortável e seguro para se colocar a disposição de um tratamento.

Não se pode afirmar qual doutrina religiosa traz eficaz na prevenção ou tratamento, todas elas trazem e possuem ensinos distintos, mas o que prevalece entre elas é a intenção de colaborar para que o dependente químico se torne abstêmio e tenha seu convívio social restaurado, onde recebe um suporte social, direcionamento psicológico e ajuda para reconstruir a própria vida, tornando possível desde então a restauração do indivíduo.

Para finalizar, é importante ressaltar que escolher práticas religiosas para tratamento de dependentes químicos, como muitos acreditam e criticam, os dependentes não trocam sua dependência química pela religião. “O novo comportamento que eles desenvolvem, por mais apegado que seja à religião, não poderia ser classificado como dependência. Não há sintomas de dependência com síndrome de abstinência, tolerância, fissura, perda de vínculos sociais ou de autocontrole, entre outros” (5).

Ter a liberdade de escolher o tipo de tratamento, seja ela científica ou religiosa (independente da doutrina), não dá o direito a ninguém de criticar, discriminar e nem mesmo marginalizar o dependente químico, que busca a restituição familiar e restauração de sua vida, a qual deve ser preservada e valorizada por todos.

 

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Josiane Machado da Silva Garcia

Advogada. Conciliadora e Mediadora pelo TJSP
Mestre em Direito pela Faculdade Metropolitanas Unidas – FMU.
Pós Graduado em Direito do Trabalho pela Faculdade Metropolitanas Unidas – FMU.
Diretora da Comissão de Direito e Liberdade Religiosa da 116ª Subseção do Jabaquara SP
Pós Graduado em Prática Cível e Trabalhista pela Escola Superior de Advocacia – ESA/OABSP.
E-mail: josianemsg@adv.oabsp.org.br

Notas

(1) SANCHEZ, Zila van der Meer. Fé na prevenção. São Paulo: 2016. Quebrando o Silêncio, p. 20. Set. 2016. Entrevista concedida a Wendel Lima.
(2) Idem
(3) NAPPO, Solange Aparecida. Brasil: Intervenção religiosa na recuperação de dependentes de drogas.
Disponível em: http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0034-89102008000200011. Acesso em 30 de agosto de 2016.
(4) SOUZA, Eldon Mendes de. Brasil: A dimensão religiosa e sua influência na recuperação de dependentes químicos. Disponível em: http://www.unicap.br/tede/tde_arquivos/5/TDE-2015-05-15T153459Z-754/Publico/eldon_mendes_souza.pdf. Acesso em 30 de agosto de 2016.
(5) SANCHEZ, Zila van der Meer. Fé na prevenção. São Paulo: 2016. Quebrando o Silêncio, p. 22. Set. 2016. Entrevista concedida a Wendel Lima.

Referências

CARLINI, Galduróz JCF, Levantamento domiciliar sobre o uso de drogas psicotrópicas no Brasil: estudo envolvendo as 107 maiores cidades do Brasil: 2001. São Paulo: CEBRID/SENAD; 2001.
MIRANDA, Jorge. Manual de Direito Constitucional, 2 ed. Coimbra: Coimbra Editora, tomo IV, 1993.
KUO, Damaris Dias Moura. COIMBRA, Alcides. Liberdade Religiosa: Conceitos. Disponível em: www.oabsp.org.br/comissoes2010/liberdade-religio. Acesso em 14 de julho. 2016.
PEREIRA, Mariana Alvarenga Eghrari. AUNE, Mary Caetana Aune. Brasil: A liberdade religiosa no Brasil – mito ou realidade? Disponível em: http://www.meel.org.br/a-liberdade-religiosa-no-brasil-%E2%80%93-mito-ou-realidade. Acesso em 30 de agosto. 2016
SANCHEZ, Zila van der Meer. Fé na prevenção. São Paulo: 2016. Quebrando o Silêncio. Set. 2016. Entrevista concedida a Wendel Lima.


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